terça-feira, 19 de outubro de 2010

Postal a respigar marés

O mar, é sabido, trás à praia tudo o que encontra pelo caminho. Pedras, lixo, carcaças de animais, conchas, algas, espumas, sapatos, garrafas. Hoje, que passo em comboio lento no paredão, observo um homem que atravessa a névoa das primeiras chuvas, debruçado sobre as manchas indistintas depositadas no areal. Vasculha com um pau, inclinado para conseguir ver o que as ondas trouxeram. Como um caranguejo de carapça em nylon azul escuro estica o braço a recolher um trapo rasgado. O comboio avança e o respigador de marés torna-se um ponto negro no areal.
Apetece-me sair da carruagem e ir ao seu encontro, sentar-me de longe a vê-lo desarear tesouros. Imagino que o faço. Que te dou conta das mãos sujas a revolver salvados de tantos naufrágios. O pássaro morto em voo enquanto procurava escapar ao outono, as penas de gaivota tombadas num asseio de ave a auspiciar escritas e desenhos, a sandália de plástico cor de rosa semi-enterrada, moldada a um pé inexistente, a lata de sumo vazia e amolgada, comprada numa tarde de sol para acompanhar uma sandes de mortadela, o gancho de cabelo perdido depois do beijo, quando num assomo de coragem ele a convidou a vir ver o mar, a garrafa verde de vinho, que idealizo de Rum, pertença do pirata Rackam, o Terrivel,pousada entre as rochas num passeio clandestino pelas margens do Tejo, a espuma a secar em riscos na praia. O comboio caminha terra dentro, a grande velocidade. E o mar vai ficando para trás...

sábado, 11 de setembro de 2010

Postal ao final da tarde

Tenho uma certa inveja. Sentam-se sempre os dois na varanda ao final da tarde, como se estivessem numa esplanada frente ao mar e conversam horas a fio até a noite assumar. Advinho-lhes as palavras nos sussurros que chegam até mim trazidos pelo vento, oiço-os rir enquanto a cidade se agita em baixo e eles nem veem. Não há nada mais do que o esticar de braços e o encostar das pernas ao soco do pequeno pátio suspenso como amurada de um navio, o estar ali, um com o outro, um no outro. Enquanto vou regando as plantas,


dou por mim a prender os olhos na toalha de mesa, na buganvilia florida de roxo a um canto, no cigarro que fumega no cinzeiro de loiça, no copo de vinho a ser levado aos lábios,




nos petiscos sobre a mesa, na porta da cozinha entreaberta, na meia bancada com a máquina do café em cima, no poster antigo colado na parede, nas aberturas sucessivas casa dentro a deixar correr o ar agora mais fresco, nas paredes adocicadas pela luz, nos corpos em repouso cá fora, nos dedos entrecruzados sobre a nuca, no sorriso, no rosto a ¼, no olhar luminoso que o observa, na conversa que se estende no puro gosto do dizer e escutar e que eu me entretenho a imaginar, suspensa em balões de acontecimentos numa iconografia inventada, no telefone que toca, na espera pelo fim desse semi-enredo invasor, de olhos postos nos telhados onde poisam as gaivotas, na onda involuntária que me molha os pés quando o vaso transborda arrastando-me em palavrões, no pavimento encharcado, nas pegadas de água em busca de um pano, no gato que as lambisca enquanto não as seco,


na mão que o afasta, no tecido a humedecer-se no descuido, na rua em baixo a ver se ninguém se molhou, na varanda onde sempre se sentam ao final da tarde, agora vazia, agora que o sol tombou.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Postal a ouvir uma conversa

Hoje está muito calor apesar de serem nove horas da manhã e tentamos todos proteger-nos na sombra irregular de um velho plátano. Ela chega à paragem do autocarro com o saco da ginástica na mão, uns óculos escuros a reproduzir os Gucci last season no rosto. Calculo que tenha próximo de sessenta anos com o cabelo curto a pintar de dourado a traiçoeira passagem do tempo.
Destaca-se, dos que comigo esperam, pela camisola rosa brilhante com que molda o corpo cheio, numa densidade voluptuosa que todos os dias atrai o Sr. Marques ao Jardim. Sobe a rua para comprar o jornal no quiosque e seguir os trilhos dos pombos até ver surgir, no areão branco, os passos dela.

Aproxima-se da paragem e mete conversa.

- Então D. Estrela, continua a fazer a sua dieta?
- Continuo Sr. Marques. Mas agora, estou a fazê-la melhor.
- Melhor?
- Sim. Agora só como alfaces.
- Alfaces...
- Sim. É só alfaces.
- Isso não me parece muito bem....

D. Estrela crava-lhe os olhos.
O Sr. Marques apercebe-se que o tom pouco reconhecido gerou incómodo.

-...devia comer fruta, acrescenta.
- E como. Como alfaces e fruta!
- A minha neta só come peros...
- Também levo aqui um.

D. Estrela ajeita a gola que se engelha a cada frase.

O Sr. Marques segue-lhe atentamente o gesto.

- Não dê salada de frutas à sua neta, diz ela.
- Eu não dou.
- No outro dia disse que lhe tinha feito uma...
- Fiz. Mas ela não comeu.
- Fez ela bem.

Com a mão esticada D. Estrela alisa a camisola.

O Sr. Marques segue-lhe atentamente no gesto.

- Digo isto por causa da mistura das frutas. Algumas fazem inchar..., enfatiza ela arrastando as palavras.
- Ela não quis comer. Pegou num pero, sem descascar nem nada, lavou-o e comeu-o
- Já faço isso ha tanto tempo...

O olhar dela a procurar o transporte que não chega,

os olhos dele no decote,

sorriso como se não soubesse,

sorriso a procurar disfarçar...




- D. Estrela ponha a sua mala ali no banco para não estar tão carregada.
- Não posso, está ao sol. E levo aqui um iogurte....pode-se estragar.

Segura com as duas mãos a alça do saco enquanto acrescenta

- e uma sandes....


Silencio, enquanto baloiça corpo e mala de tras para a frente a marcar os minutos.

- Agora, só como alfaces, fruta, iogurtes e sandes... dispara de soslaio a deter o ondear hipnótico.
E às vezes uns sonhos..

Os olhos de D. Estrela abrem-se por detrás dos óculos escuros, morde o lábio inferior a saborear a ideia, o baton prende-se no canino.
O Sr. Marques engole em seco. O estomago ruge... Na folha de rosto do jornal apenas consegue ver a boca suja de açucar de D. Estrela enquanto o autocarro se afasta da paragem quase vazia.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Um postal ao balcão

Ajeito-me entre as Empadas e os Palmiers e procuro na mala a caneta para te escrever. É cedo e a pastelaria está às moscas. O Sr. João trouxe-me entretanto o carioca que lhe pedi. À medida que se aproxima a hora do autocarro, surgem mais clientes. Gosto quando se detêm frente à montra dos bolos e lhes vejo os olhos, e neles o pensamento, as calorias, as cáries, o colesterol, a dieta, a gula, o horário do dia com a pausa para comer, o saquinho de papel manchado de gordura, o Bolo de Arroz, o Rim ou o Jesuita, comprados nesta manhã em que te escrevo, a desaparecerem, boca fora, já longe do meu olhar. Enquanto espera o embrulho para levar, a senhora velha pede um garoto, o carteiro uma bica, um homem de calças de ganga pintada um café. Não é um cafézinho como o da D. Olga, tomado em sorvo aflito a enganar o quente no passo apressado pela preocupação de levar o neto ao infantário. Nem tão pouco um café quase cheio que faz parecer a cafeina um inimigo menor. É um café café, ainda que a piscar o olho a um cheirinho para aguentar a dureza do dia nas obras de reconstrução do prédio ao lado.





Ha quem se aproxime e peça um descafeinado, quem goste de uma chicara ou da chavena escaldada aninhada nos dedos a activar a circulação. Alguns pagam o totoloto entre golos e galões. Outros, hesitam entre abatanados e meias de leite a ouvir ao longe o autocarro em esforço a subir a rua. Ha quem tenha ainda tempo para uma italiana, um café duplo, um duplo escaldado, um pingado, com açucar, sem acuçar, com frutose, com pauzinhos de canela.

Há quem pague e quem deixe ficar as moedas sobre o balcão, quem pague mais logo, quem ponha na conta, quem se esqueça, quem desapareça porta fora. Pego no postal, despeço-me e corro para não perder o transporte.

sábado, 19 de junho de 2010

Um postal entre dentes

De todos os feitios, as falésias, as ravinas e as ondas do sul de Portugal procuram seduzir os turistas. Há-as para todos os gostos e o postal em forma de trevo de quatro folhas augura boa sorte.
Quem olha para tudo muito desconfiada é a velha desdentada que na loja assiste ao esgotar do stock. No seu tempo não existia silicone e os fatos de banho bem cobertos não permitiam excessos. A fotografia de casamento, exposta num canto da loja, entre fatos de banho e sandálias, atesta a sua seriedade e estas modernices quase fazem corar a noiva e os convidados.

Mas quando os visitantes regressam aos hotéis e a noite cai sobre a falésia, é possível ver-se ao longe, correndo pelo areal, uma mulher nua que para trás deixou apenas a dentadura…

Um postal de inverno

Quis só mandar-te um abraço, hoje que tive um dia de cão. Tive aulas miseráveis em presença de uma colega que acha. Acha sempre qualquer coisa sobre tudo e eu acho que estou farta dela achar tanto e ser tão pouco.

Choveu a potes e eu esqueci-me do guarda-chuva. Cheguei ao emprego como uma esponja, encharquei o soalho encerado e chamaram-me a atenção por isso. O computador engasgou-se e fez desaparecer um texto inteiro. Perdi o autocarro, o outro passou em cima de uma poça e molhou a velha atrás de mim que vociferou “devo estar toda negra!”. O negro atrás dela riu mostrando uns dentes muito brancos e eu ri-me também quando um relâmpago rebentou por detrás do Carmo. Porra! Morro de medo de trovoadas…

Cheguei a casa cansada de me arreliar com tudo, é que ele há dias assim, e no final… olha apeteceu-me mandar-te um abraço, hoje, que tive um dia de cão.