Ninguém percebeu ao certo como tudo aconteceu. O barulho foi estridente, de metal contra metal, como o silvo de um foguete ou giz sobre ardósia. Mas ampliado várias vezes. Mesmo o Roberto lá no alto se mostrou surpreendido. Até porque, até aquela hora, nada naquela manhã decorrera fora do habitual. Levantou-se como sempre fazia com o despertador a tocar às dez para as seis e o galo de um quintal próximo a acompanhar, de forma intermitente. Era noite escura e lá fora uma ou outra luz a quebrava a monotonia da paisagem. Nos rituais de higiene matutina sentiu a água fria activar-lhe os músculos da cara e afeitou a barba, como se talhasse um pedaço de madeira. Sempre tivera aquela compleição seca que lhe reforçava as maças do rosto, a boca larga, as orelhas salientes, que lhe tinha valido em criança a alcunha de Pinóquio.
Apertou os botões de punho à medida que arregaçava as mangas à camisa, esticou o peito e começou a subir a longa escada sentindo fluir o ritmo da música em ascensão. Sacudiu as abas de grilo do fraque, como um toureiro agita a capa em desafio ao touro. Olhou de soslaio para baixo na esperança de ver surgir atrás de si Adélia do café Ginja do Tejo, vestida de cerimónia, a esvoaçar na grande saia branca emplumada pelo vento, tal qual a actriz loira dos filmes de sapateado. A melodia envolveu-os e estavam já distantes da terra, suspensos na bolha de vidro da cabine de comando. Sedutor, sorrindo sempre com muitos dentes, guiou-lhe os passos pelas nuvens
E no exacto momento em que se preparava para fazer Adélia deslizar de costas sobre o seu braço, beijando-lhe ardente o rosto com o olhar e a respiração quente, foi acordado em alvoroço com o degagé da enorme grua sobre a cidade, entrando pela marquise de alumínio do prédio em frente, como se esperasse ser erguida em aplauso pelas gaivotas ali antes poisadas. Detenho-me maravilhada com o acontecido e avanço apressadamente para os correios para não perder a abertura. Consigo enviar-te este postal a tempo, com a cara vermelha do “Roberto manobrador” na ponta da caneta e o olhar incrédulo, de colegas e transeuntes, espalhado no papel e na memória. Enquanto espero a minha vez cruzo os dedos e faço figas na expectativa de ver surgir no placard luminoso dos talões: “Roberto Astaire e Ginger Grua: 10 pontos”!
Acabou de acordar à medida que se aproximava da cidade, de camioneta primeiro, de barco depois, viu o reflexo do sol despontar nas poças do molhe junto ao cais, já em Lisboa. Além do saco onde trazia o termos com as sobras do jantar, um papo-seco com marmelada e um cantil com água, carregava todas as segundas e quartas, uma mochila às costas. Hoje parecia-lhe particularmente pesada, mercê das sapatilhas quase novas compradas por anúncio de jornal em Almada. Cerca de 40 euros e um couro de meter inveja. Embalado, tinha comprado também o respectivo kit de polimento e graxa. Não via a hora de as calçar e deslizar pelo soalho como se tivesse asas nos pés.
Enquanto pendurava o casaco no prego improvisado de cabide projectou mentalmente o momento em que, findo o do dia, despiria o cansaço arrumando os Jeans e a camisa de quadrados no cacifo. Sentar-se-ia nos bancos de madeira corrida para vestir o fato de licra preta como se envergasse calças e casaca. Estava tão concentrado a apertar os atacadores e a experimentar o som das chapinhas com parafusos de solda que nem deu pela entrada dos outros operários no recinto vedado das obras. Enquanto se foram cumprimentando e distribuindo pelos postos de trabalho, tacteou o chão em pequenos soluços a fazer vibrar o metal.
Apertou os botões de punho à medida que arregaçava as mangas à camisa, esticou o peito e começou a subir a longa escada sentindo fluir o ritmo da música em ascensão. Sacudiu as abas de grilo do fraque, como um toureiro agita a capa em desafio ao touro. Olhou de soslaio para baixo na esperança de ver surgir atrás de si Adélia do café Ginja do Tejo, vestida de cerimónia, a esvoaçar na grande saia branca emplumada pelo vento, tal qual a actriz loira dos filmes de sapateado. A melodia envolveu-os e estavam já distantes da terra, suspensos na bolha de vidro da cabine de comando. Sedutor, sorrindo sempre com muitos dentes, guiou-lhe os passos pelas nuvens Heaven, I'm in heaven,
And my heart beats so that I can hardly speak
And I seem to find the happiness I seek
When we're out together dancing, cheek to cheek
E no exacto momento em que se preparava para fazer Adélia deslizar de costas sobre o seu braço, beijando-lhe ardente o rosto com o olhar e a respiração quente, foi acordado em alvoroço com o degagé da enorme grua sobre a cidade, entrando pela marquise de alumínio do prédio em frente, como se esperasse ser erguida em aplauso pelas gaivotas ali antes poisadas. Detenho-me maravilhada com o acontecido e avanço apressadamente para os correios para não perder a abertura. Consigo enviar-te este postal a tempo, com a cara vermelha do “Roberto manobrador” na ponta da caneta e o olhar incrédulo, de colegas e transeuntes, espalhado no papel e na memória. Enquanto espero a minha vez cruzo os dedos e faço figas na expectativa de ver surgir no placard luminoso dos talões: “Roberto Astaire e Ginger Grua: 10 pontos”!

São sobretudo pescadores amadores, reformados, gente que mora pelas redondezas e se senta ali a olhar o horizonte, a tecer, entre redes de nylon desusadas, contornos de histórias. Falam de futebol, das desavenças do dia-a-dia, da vida no bairro. Por vezes mencionam, de memória contada, os dias antes da construção do caminho-de-ferro. As hortas e os jardins que se estendiam em direcção à água, sem nada que separasse o quotidiano com a visão do progresso. O roseiral de Dom Martim impecavelmente protegido das geadas, com rosas de várias cores, presas por atilhos a uma armação, carnudas, espinhosas.
Mas nenhum espinho foi tão agreste como o da linha de caminho-de-ferro em construção, a atravessar terrenos a grande velocidade. Nessa altura D. Martim já estava acamado, atacado por uma pneumonia que viria a ser fatal e toda a família procurou disfarçar o tum-tum dos martelos, o tremor que abalava a casa, o som das escavadoras a roerem o jardim. Deram graças por não ter ouvido já o som metálico das rodas nos carris a colherem os pés de rosa sob a promessa de outras velocidades e contemplações.
E o Bugio vai ficando para trás à medida que o grande pinheiro se aproxima, e debaixo dele se encontram as duas vizinhas que todas as manhãs trazem os cães a passear no baldio. Quando a voz gravada anuncia a paragem seguinte e a carruagem é atravessada por uma ligeira agitação, estava capaz de jurar que pelo canto do olho tinha visto o Bugio levantar voo em direcção a Sul...


Também não se teria importado de nascer em pano azul, como alguns dos Meninos-Jesus do Porto. Uma vez amarelo, também poderia ter nascido na manjedoura de palha impressa, do Menino-Jesus que habita no bairro adiante. O Menino-Mirrado acena aos quatro Pais Natal que trepam uma escada um pouco mais acima e pensa que a inveja é um pecado feio, enquanto sonha com a fatia de Bolo-Rei que está a ser comida, no interior da casa de quem o expôs.

Uma rosa sem cor? Lugares-comuns para me sentar. Conversas boas, músicas que sei de cor, um boião e dentro, o mar.




dou por mim a prender os olhos na toalha de mesa, na buganvilia florida de roxo a um canto, no cigarro que fumega no cinzeiro de loiça, no copo de vinho a ser levado aos lábios,


D. Estrela ajeita a gola que se engelha a cada frase.

À medida que se aproxima a hora do autocarro, surgem mais clientes. Gosto quando se detêm frente à montra dos bolos e lhes vejo os olhos, e neles o pensamento, as calorias, as cáries, o colesterol, a dieta, a gula, o horário do dia com a pausa para comer, o saquinho de papel manchado de gordura, o Bolo de Arroz, o Rim ou o Jesuita, comprados nesta manhã em que te escrevo, a desaparecerem, boca fora, já longe do meu olhar. Enquanto espera o embrulho para levar, a senhora velha pede um garoto, o carteiro uma bica, um homem de calças de ganga pintada um café. Não é um cafézinho como o da D. Olga, tomado em sorvo aflito a enganar o quente no passo apressado pela preocupação de levar o neto ao infantário. Nem tão pouco um café quase cheio que faz parecer a cafeina um inimigo menor. É um café café, ainda que a piscar o olho a um cheirinho para aguentar a dureza do dia nas obras de reconstrução do prédio ao lado.





